I
Será possível no momento certo falar com a loiça,
fazer com que o bule do chá nos oiça
e se dirija para a chávena só por si.
Agora os filhos das mulheres que amo morrem de fome.
Será possível que os carros não tenham rodas
e flutuem como gaiolas no ar,
e que por amor nunca mais ninguém
tenha de morrer ou de matar.
Agora o disco rígido é pequeno para tanta memória.
Os ventos do progresso têm velocidades de tempestade,
a dança do ventre não exige a mais bela bailarina,
ainda sonho com os dedos a estalar e cai chuva.
Agora chove e as crianças passam fome.
A fome é o fim do mundo, não há ligações USB
para quem não vê o prato cheio.
A fome é o dia de amanhã que não existe, é
o vírus que preenche todas as nossas disquetes.
Agora o disco rígido morre e é noite.
II
Estou com um certo problema de sobreaquecimento,
na era do plástico ainda estamos presos ao cimento,
entre os buffers e a cache lembro coisas que não são minhas,
nem o meu chip é igual ao das máquinas vizinhas.
Se nasceste para master nunca slave serás,
no clipboard da vida o que mais manda é a necessidade,
felizmente o scanner digitaliza bem o que sinto,
e o CD-rom não só lê mas também grava,
e a bios é daquelas de boa catadura.
Se não fosse a memória e o polegar éramos quem?
Nem macacos, ridículos que somos a subir a árvores.
A destreza dos campeões, os sermões das beatas,
visite-nos, temos soluções simples e baratas.
Estou em videoconferência com os homens do silicone,
estou a teclar enquanto falo e às vezes faço zoom,
a gravata do patrão é de uma cor que me incomoda,
talvez seja da distância ou lhe falte o toner,
mas nem com o joystick o ponho a fazer um mortal.
III
Dos teus seios espero sempre que saia leite,
mas sai antes o veneno que me quer matar.
Neste momento renego todos os vícios e oiço pop.
O coro dos que sofrem é uma horrenda sinfonia.
Não só a fome mas também o medo; para quem é simples
um rato é sempre um bicho, eléctrico ou não.
Que podemos nós fazer com tanta comunicação?
Fugir para as praias, esquecer os dias?
A única verdade é esta, a de toda a gente.
A mulher dos olhos encovados está nos meus sonhos,
a mulher dos olhos azuis está nos meus sonhos,
a mulher do ferry entre ilhas está nos meus sonhos,
os meus sonhos estão algures entre Oslo e Veneza.
Faço click, capturo a beleza, no futuro
os aviões vão ser de prata e aterrar como folhas,
no futuro as tvs vão ser do tamanho de paredes,
no futuro cada um será dono do seu filme
e o sexo será simples mesmo que se fale de bananas.
IV
Ao contrário do que consta no livro sacro,
um atalho não é necessariamente um caminho espinhoso.
perante a barra de tarefas toda a acção se torna lógica,
do laser ao lazer vai apenas um pequeno rubi.
Plug and play é o que sou quando amo a quem já não me ama,
a cama é como um écran com poucas polegadas,
manadas de pixels trotam para me dar a cor perfeita
mas o shareware tem sempre as suas limitações
e a resolução final é a vida que a toma por mim.
Desfragmentar soa a caos mas afinal é coisa boa,
arquivos e pastas e ficheiros dão-nos sentido de Estado,
arrastar e largar é tão funcional como varrer,
gigabytes de beijos para todos os que aqui estão hoje
e logo à noite não percam o corrector gramatical.
Garantimos que o disco de arranque de emergência
também faz falta nos feriado e nas descidas,
e por favor não confundam um executável
com o tipo que violou três raparigas lá para o norte.
V
Quão longe da verdade se pode andar porque se ama?
Quem sobra nesta conta se todos estamos a mais?
Morro sempre que me morre uma menina,
até os cães me custa olhá-los quando sofrem.
O teu site e o meu site ainda vão dar saitinhos,
o sexo virtual resolve-se com uma boa masturbação,
rock’n’roll will never die, e um e-mail para ninguém
tem o à vontade de não chegar a ninguém,
olha que, olha quantos, olha quem.
Na minha rede ninguém faz capoeira.
E mesmo que eu crashe na próxima esquina
por falta de gasolina, que ninguém me confunda
com quem não tem investido no mercado de acções.
O rock’n’roll nunca morre, as mulheres dançam-no é pouco,
a luz dos candelabros é controlada à distância por um gnomo,
sim eu sei irmã, sim eu sei senhor, sim eu sei
e sou esta criatura sem burro nem terra
à procura de que nunca me falem de perdão.
VI
What you see is what you get, seja ovo ou omeleta,
as linguagens tanto são para surdos como para cegos,
o sistema operativo não precisa de ser num hospital
e pontos por polegada é um jogo em que ninguém ganha nada.
Do tipo de letra dizem que o meu é bonito mas os standards
vão acabar por dar aos analfabetos uma razão de viver.
Read me, diz aquele ficheiro de lágrimas amarelas,
à espera que num país do terceiro mundo como o nosso
alguém ligue muito às letras pequeninas dos contratos.
Vamos agora imprimir uma imagem imperecível,
aquele momento do jogo em que matamos o monstro maior,
ou a história dos que falam para o monitor à espera de resposta,
ou o famoso écran azul que não é o céu nem um aquário.
Não, crianças, adultos, não me cansem,
a minha fonte alimentação é toda essa barragem
que nem a placa-mãe suporta sem anestesia.
E não, não há placa-pai, não há filhos que aplaquem
a fúria desta nova revolução industrial.
VII
Invento tanto que não sei já bem como parar,
do que é básico já me esqueci e é tudo igual
e há coisas que me assombram e outras que cansam
e os becos sem saída são a minha saída.
Há quem nos cheire mal logo à distância,
será dos pés ou do pó nas ventoinhas,
do que estou certo é que é certo que o concerto
vai ser visto por seis milhões de pessoas.
Nada é tão fácil como lidar com um botão.
Não dou o meu nome a ninguém.
Não me ajoelho mas rezo. Não olho o écran.
Não me canso de dizer o que já todos sabem.
Mala cheia, os teus soutiens não cabem.
Percebes o truque, os dedos no teclado,
as hipóteses, as próteses que a técnica nos dá,
percebes ou não percebes ou pensas que percebes,
como sabes as mães acabam por falar com os pais,
uma placa de som para te ouvir,
uma placa de vídeo para te ver,
o modem acaba-nos com a modéstia.
VIII
O server trás-me uvas e lava-me os pés,
estar on-line é mesmo a última que me faltava,
faço o attachement perfeito mas não resulta,
é muita informação e nunca passa da condição virtual.
Chat sim, mas não chateies o meu humor fluído,
não me envies mails a vender-me o que já tenho,
o browser corre e ofega mas a linha é lenta,
a senhora na tv tira a blusa enquanto canta as notícias,
a adrenalina em 3D não deixa marcas nos braços.
As moscas são insectos que vivem noutra contabilidade,
os vírus são gregos mas viajam até à Polinésia,
do futuro tenho a impressão de que bastará pensar
até que aconteça alguém a voar como nos sonhos.
No futuro a tua pele será particularmente inteligente,
mas nem assim te será possível escapar à possibilidade
da realidade entrar em tua casa e não sair.